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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A torre do Facho



A vila de Alvor deve o seu nome, ou topónimo, a uma importante atalaia árabe situada estrategicamente numa falésia, a nascente.
Da palavra al-Bourj, que na língua árabe significa "a torre", passou a al-Bour e ficou Alvor.
Devido à sua posição previlegiada foi sendo utilizada depois pelos cristãos à qual deram o nome de "torre do Facho" pelo facto de, tal como no passado, ser utilizada preferencialmente de noite, onde se acendia no seu topo um facho ou pequena fogueira que alertava imediatamente a povoação para qualquer perigo.
É descrita em documentos antigos mas, por não a conseguirem localizar, os historiadores locais deram-na como desaparecida para sempre.
No entanto, o seu lugar exacto foi identificado há uns anos por nós.
Apesar de não restar actualmente quase nada que a identifique por se ter transformado com o tempo, num monte de terra e pedras, ficou no entanto como testemunho solitário,  aquilo que resta da sua escada de acesso.
Uma cuidada escavação arqueológica revelaria com certeza as suas fundações e quem sabe se algo mais, assim como uma intervenção no sentido da reconstrução da velha Torre do Facho ressuscitaria um pouco da História da povoação a que a velha al-Bourj  deu o nome.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O cavalo branco – uma história sufi



Numa aldeia distante vivia um velho muito pobre.
Ele possuía um cavalo branco que era belíssimo e de muito valor.
Todos tinham muita inveja dele.
Os reis e os nobres tinham ambição pelo cavalo e desejavam-no.
Faziam propostas ao velho que incluíam valores bem altos.
O velho argumentava que o cavalo era como uma pessoa para ele e não um simples cavalo.
Assim, ele não poderia vender o animal.
Como poderia vender um amigo?!
Embora fosse pobre e muito necessitado, rejeitava sempre aquelas propostas.

Certo dia o cavalo desapareceu.
Os vizinhos vieram e comentaram:

“Velho tolo!
Você não vendeu o cavalo embora precisasse muito do dinheiro.
Agora o cavalo foi roubado. 
Isso foi uma coisa muito ruim.
Um verdadeiro azar e uma maldição”.

O velho disse:

“Calma!
O cavalo apenas não está aqui.
Essa é a única realidade.
Qualquer observação a mais é puro julgamento.
Isso é apenas um fragmento duma história.
Não sabemos o que vem depois.
Se é ruim ou bom, se é azar ou sorte, não podemos dizer nada a respeito disso.
Não julguem.”

Os vizinhos responderam indignados:

“Nós não somos parvos!
Não venha com filosofias desnecessárias.
O simples facto de que você perdeu o seu valioso cavalo é indicação de coisa ruim, de azar”.

As pessoas riram do velho considerando que ele tinha ficado louco.

Duas semanas depois o cavalo reapareceu.
Ele não tinha sido roubado.
Apenas tinha fugido para os campos.
No seu retorno vieram com ele uma dúzia de cavalos selvagens, todos muito bonitos e valiosos.

Os vizinhos, vendo aquilo, disseram ao velho:

“Desculpe-nos, você estava certo, foi uma benção e não um azar”.

Mais uma vez o velho comentou:

“Calma!
O cavalo apenas voltou e doze outros cavalos vieram com ele.
Não julguem se é bom ou mau, se é sorte ou azar.
A menos que vocês tenham conhecimento de toda a história, não podem julgar.
O que aconteceu é apenas um fragmento.”

Embora achando que o velho estivesse errado, desta vez os vizinhos ficaram quietos.

O velho tinha um filho único que era bem jovem.
Ele começou a adestrar os cavalos selvagens, mas logo aconteceu um acidente.
Ele caiu de um dos cavalos e quebrou as duas pernas.
Os vizinhos reuniram-se e foram até o velho dizendo:

“Você estava certo novamente.
Não era sorte e sim maldição.
Agora o seu filho, que o ajuda muito, está temporariamente inválido e pode até ficar aleijado”.

Mais uma vez o velho disse:

“Vocês não conseguem evitar o julgamento.
Meu filho apenas quebrou as pernas.
Ninguém pode dizer se isso é bom ou ruim.
É apenas um fragmento da história.
Só se pode julgar quando a história chega ao fim”.

Pouco tempo depois, aquele país foi atacado pelo país vizinho.
Todos os jovens daquela aldeia foram levados à força e forçados a lutar na guerra.
Como o país agressor era muito superior, a guerra estava perdida e os jovem não regressariam com vida. Todos na aldeia gritavam e choravam em desespero.
Foram até o velho e disseram:

“Você estava certo!
Seu filho pode até ficar aleijado mas está aqui.
Não foi levado.
Nossos filhos foram para sempre.
Com certeza não voltarão”.

O velho, pacientemente disse:

“É difícil lidar com vocês.
Sempre julgando.
Ninguém pode saber o que é bom ou mau, se é uma bênção ou um azar.
Digam apenas que seus filhos foram obrigados a ir para a guerra e o meu não.
Ninguém é capaz de prever nada.
Ninguém sabe.
Só Allah sabe”.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O código da Futuwwa



Na civilização islâmica, a futuwwa (cavalaria espiritual), poderá estar na origem de ordens militares, de cavalaria e fraternidades da Europa medieval.
Combinando serviço militar com a disciplina espiritual, estas ordens desempenharam um papel importante na história islâmica, chamando os seus membros mais plenamente à vida espiritual e ética do Islão.
As ordens e fraternidades ("Tariqas") ainda sobrevivem em algumas áreas do mundo islâmico.
São conhecidas como futuwwat ou por outros nomes, como o Akhi movimento ("fraternidade") na Anatólia.
Todas elas têm sido associados com Ali ibn Abi Talib, que recebeu a qualidade e poder de cavalaria espiritual do Profeta.
Em termos ocidentais, pode-se dizer que Ali é o "padroeiro" das ordens de cavalaria e fraternidades do Islão.

Abu al-Qasim Ahmad ibn al-Husayn ibn Qasi - um místico sufi, natural de Silves, governador de Mértola e Silves fundou uma dessas fraternidades, " Os Muridin " (adeptos)...

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O código da Futuwwa

(Código de Honra da Juventude e da Cavalaria) 
Futuwwa - Significa juventude e cavalheirismo
Derivado da " fata " (jovem), futuwwa tornou-se um símbolo de rebeldia contra todo o mal e da luta para se tornar num servo sincero de Deus:
Futuwwa, é um composto de virtudes como a generosidade, modéstia, castidade, fidelidade, lealdade, misericórdia, conhecimento, humildade e piedade, e é uma das etapas de um viajante no caminho para Deus, até atingir uma dimensão de santidade.

Soma das quatro grandes virtudes:
•    Perdoar quando se é capaz de punir.
•    Preservar suavidade e agindo suavemente quando se está furioso. 
•    Desejar o bem até mesmo aos inimigos e fazer-lhes o  bem. 
•    Ter sempre em atenção em primeiro lugar o bem-estar e a felicidade dos outros, mesmo quando se é carente.

Tradução livre.
(Livro de Cavalaria Sufi, Muhamad ibn al-Husayn al-Sulami)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O guerreiro muçulmano e o cruzado cristão


   Um muçulmano e um cristão estavam lutando quando chegou o momento, para o muçulmano, de fazer suas orações, de sorte que ele, orgulhoso, pediu ao cristão que lhe concedesse uma trégua. O cruzado concordou, e o muçulmano, afastando-se, fez suas orações.
 Quando voltou, reiniciou-se o combate com renovado vigor. Pouco depois, por seu turno, o cruzado solicitou uma pausa para poder dizer as suas preces. Sendo-lhe atendido o pedido, ele também se afastou e, escolhendo um local apropriado, prosternou-se no pó diante do seu ídolo.
 Quando o muçulmano viu o adversário de cabeça baixa, disse a sós consigo: “Esta é a minha oportunidade de lograr a vitória”, e veio-lhe a ideia de golpeá-lo à traição.
 Mas uma voz interior recriminou-o: “Ó homem desleal, que pretendes trair o teu compromisso, é assim que manténs a tua palavra? O descrente não sacou da espada contra ti quando lhe pediste uma trégua. Não te lembras das palavras do Corão?: ‘Cumpre fielmente tuas promessas’? Visto que um infiel foi generoso contigo, não te mostres inferior a ele. Ele agiu bem, queres agir mal. Faze-lhe o que ele te fez, serás tu, muçulmano, indigno de confiança?”
 Conteve-se o muçulmano e torturado pelo remorso, viu-se banhado em lágrimas da cabeça aos pés. Quando o cruzado deu tento do seu pranto, perguntou-lhe a razão dele. “Uma voz celestial” explicou o muçulmano, “Censurou-me por não ter sido leal contigo. Vês-me neste estado porque fui vencido pela tua generosidade.”
 Ouvindo-o, o cristão despediu um grande grito e disse: “Já que Allah pôde mostrar-se favorável a mim, seu inimigo declarado, e censurar Seu amigo por deslealdade, como poderei persistir na infidelidade? Mostra-me os princípios do Islão para que eu possa abraçar a verdadeira Fé e, afastando de mim o politeísmo, adoptar os ritos da lei.
Oh, como deploro a cegueira que me impediu, até agora, de reconhecer um Mestre assim!”
Ó tu, que deixaste de procurar o verdadeiro objecto dos teus desejos e careces grosseiramente da fé que lhe é devida! Creio que virá o momento em que, na tua presença, o céu rememorará todos os teus actos, um por um.
                                                                                                    história sufi - Farid Ud-Din Attar

domingo, 27 de maio de 2012

A Luz que Cativa


Ao perguntar “como posso ir até a Ti”.
Ele respondeu: “abandona teu eu” e vem. Nada pode ser acrescentado à Unidade.

Quando Allah soube que minha súplica era sincera e desesperada, me inspirou o completo esquecimento de mim mesmo.
O limite final dos autênticos iniciados corresponde aos dois primeiros estágios dos profetas.

Inclino-me com veneração, me prosterno com humildade.
Despojei-me do meu eu como a víbora de sua pele.
A perfeição do iniciado se adquire mediante o aquecimento no amor por seu Senhor.

Como se reconhece o iniciado?
É o que não se deixa embriagar por sua invocação.
Ele é o Uno.

Sufi é aquele que toma o Livro de Allah em sua mão direita e a tradição em sua mão esquerda.
É preciso abandonar a cólera, o orgulho, a disputa que gera hostilidade.
Seja seu próprio crítico e faça o exame de consciência. Combata ao ‘eu’.
O amor e a fé colaboram no coração do homem sincero.

O que é o sufismo?
É afastar o ‘eu’ com o serviço (ao mundo).
Invoco-te no segredo do meu coração – estou aniquilado e Tu permaneces.
Meu nome se desvaneceu...
Não há nada mais – só Tu existes.

Abu Yazid Bastami

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Eremita Sufi


O Sufi Bayazid conta, o seguinte de si mesmo :

"Na juventude, eu era um revolucionário e assim rezava:
 'Dai-me energia, ó Deus, para mudar o mundo!'
 Ao chegar à meia-idade, notei que metade da vida já passara sem que eu tivesse mudado homem algum.
 Então, mudei minha oração, dizendo a Deus:
'Dai-me a graça, Senhor, de transformar os que vivem comigo dia a dia, como minha família e meus amigos; com isso já ficarei satisfeito'
 Agora que sou velho e tenho os dias contados, percebo bem quanto fui tolo assim rezando.
Minha oração, agora, é apenas esta:
'Dai-me a graça, Senhor, de mudar a mim mesmo'

Se eu tivesse rezado assim, desde o princípio, não teria esbanjado minha vida."
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